Aqui
Há um ano num lugar de muitos nomes.
A folha do calendário mostra-me o dia sem cerimónia, como se ainda não soubesse que os seus números raras vezes são só números. Este marca um aniversário para o qual não estou preparada: um ano desde que parti da Malásia e cheguei aqui, down under. Números: 1, 7, 2, 6. Tudo menos números.
Chego à data no fim de uma semana particularmente agitada. Não durmo bem, por razões de hormonas e de números que não são só números. Passo o dia a correr maratonas mentais, fecho os olhos esgotada, mas a noite não significa descanso. Nela, também não estou quieta. O meu sossego é descartado por viagens involuntárias, sonhos que me empurram de um tempo para outro, de uma Rita para outra. Um dia, a Rita de dez anos. Outro, a de vinte. Outro, a de trinta. A Rita que estuda um curso e outro, que ainda não sabe de maternidade, que não imagina a fisioterapia, que só escreve para ela, a Rita que ainda não emigrou de vez, uma, duas vezes, a Rita que do amor só levanta a ponta do véu. Visto-as todas pelos caminhos assombrados do sonho. Sou todas e cada uma delas outra vez, em cada um desses lugares. A cada manhã, contudo, acordo sempre a mesma, deitada na cama em que adormeci, nesta terra a que chamam, e eu repito, Austrália. Terra que, tal como eu, não esquece todas as outras coisas que foi antes de ser o que é, no número que o calendário mostra.
Cheguei há um ano. O número não é só um número e exige que páre frente ao calendário e rebusque significado. Não quatro dias antes, não sete dias depois, mas este preciso dia. Por vezes penso como seria a vivência humana sem o escrutínio das horas, como funcionaria a memória, que relevância teria o ontem no hoje se não o soubéssemos localizar exactamente em números, se vivesse em nós esbatido na névoa incerta das emoções. Mas em vez disso o número e o dia exacto e eu obrigada a prestar-lhe homenagem, a não deixar passar para o dia seguinte, cujo número já não tem qualquer significância neste contexto.
Um ano, penso. O que ofereceu ele à minha história, o que acrescentou às minhas Ritas? Penso que muito. E que muito pouco. Não estou senão à superfície, à porta do lugar onde ainda não entrei. Sei que esta terra é profunda, vermelha de sangue, mas eu não piso senão calçada, betão e relva tratada. Sei que vive nela um legado fascinante e perturbador. Ouço-o nas margens da cidade, sussurrado nas folhas verdes de eucaliptos cinzentos, no vento que as espalha por urzes rijas, no enorme céu que cobre a planura. Sei que esta terra me vai transformar ainda, que há outra Rita à espera. E por isso sei que esta terra é futuro e não passado, e que a data no calendário não quer dizer nada, porque ainda não cheguei verdadeiramente. Estou à porta, e ela ainda está fechada.
Neste ano, e com adequada dose de cautela, instalei-me à superfície. Atenta. E de tudo o que vi e ouvi, retive com especial atenção a frase da mãe de uma amiga que passou a adolescência aqui e que nunca mais quis regressar: there’s no blessings on stolen land.
Arrepia-me a frase e não sei se a sinto como maldição ou constatação. Inspiro-a e a expiro-a, e peneiro-a com suposições. There’s no blessings on stolen land. Talvez seja possível viver em paz numa terra roubada se a devida homenagem for prestada. Se eu souber desta terra o percurso e a história para lá do hoje e do ontem, se souber aprender com a cultura milenar, se me souber colonizadora a quem nada pertence de direito próprio, talvez exorcize a praga. Se agradecer estar aqui, pisar esta terra que não é minha, da qual tão pouco sei da vontade e do temperamento, só do betão e do alcatrão que lhe cobrem pele e poros, se tiver sempre o respeito vivo na ponta da língua, poderei ser mais do que (mais uma) beneficiária de um genocídio?
O incómodo está presente em mim desde a chegada. Há um ano, como me lembra o calendário. Talvez por isso tantas vezes viaje à noite para longe desta terra com todas as minhas Ritas. Hoje, por exemplo, antes de tropeçar na data, sonhei receber a visita de uma querida amiga. Na liberdade do sonho, quando lhe quis dar a conhecer a cidade, dei por mim a levá-la às Petronas, a caminhar na selva, a almoçar num hawker onde, sentadas em cadeiras de plástico na rua, pingámos o suor dos trópicos. Ela vinha visitar-me aqui, nesta terra que conhecemos como Austrália, na cidade que chamamos Melbourne, mas eu levei-a para longe daqui, até à Malásia.
Surpreendeu-me esta teimosia de me levar a mim própria para longe desta terra, mas ao escrever estes parágrafos creio que entendo. A Malásia foi um lugar onde vivi livre de responsabilidades. O país não era nem nunca seria meu, sempre o observaria de fora, confortavelmente, como um treinador de plateia. A minha estadia tinha um começo e um fim, o meu estar era um não-estar. Nunca teria privilégios nem obrigações de cidadã, como o treinador de plateia não o tem relativamente aos seus palpites e certezas.
Nesta terra, contudo, o desafio é constante. Tenho data de chegada, mas não de partida. Sou chamada a pertencer a uma terra roubada, e sou aceite com mais facilidade do que aquela cuja identidade está ligada a este lugar, cuja cultura aqui assenta há milénios. Não sou eu a intrusa na cidade, mas ela. Como aceitar viver aqui sem ser pelo menos um pouco cúmplice? Se digo que vivo na Austrália, por exemplo, em vez de explicar que habito a terra dos Wurundjeri, se me digo em Melbourne, em vez de em Naarm, não estou, nestas escolhas orientadas pela facilidade de comunicação, a reforçar o esquecimento e contínua destruição de uma cultura e História de 65000 anos? Não estou, na minha linguagem quotidiana, a contribuir para esta miopia eurocêntrica de que nada começa antes da chegada do homem europeu e só depois da sua violência existe civilização, esta civilização que escolhemos aplaudir apesar dos séculos de sangue, desumanização e pilhagem?
Penso nisto e logo a seguir penso porque penso nisto. Porque não descanso a mente, adormeço a consciência e me instalo confortavelmente como a maioria faz. Aos poucos, vejo-me outra vez a não pertencer. Aqui, como em tantos lugares onde fui outras Ritas a caminho desta. A não pertencer à maioria, a não pertencer à bandeira, a não ter a leveza certa, a inanidade adequada, a não desfrutar do privilégio sem culpa nem consciência, a desconhecer o bálsamo da dormência. Com a acumulação de idade e conhecimento, a tarefa é-me cada vez mais difícil e talvez tenha de reconhecer que sou caso perdido. Nesta minha passagem pela vida, estou condenada a não saber como manter a mente numa confortável miopia de contexto. E a lesionar-me sempre que arrisco o malabarismo necessário para serpentear, sem que me toquem, factos, interligações e consequências.
Com o peso da minha não-pertença e limitada pelas minhas incapacidades, instalei-me nesta terra como quem se instala num sofá de casa alheia. Confortável, mas sem que me atreva a descalçar ou a colocar os pés em cima do encosto. Comporto-me, porque a qualquer momento posso ser posta na rua, se não silenciar tudo o que devo silenciar, se vir tudo aquilo que não devo ver, se souber o que não devo saber.
Naturalmente, em busca de conforto e pertença, construo amizades na periferia,
como a filha da mulher que deixou este país porque there’s no blessings on stolen land e que aqui chegou há dois anos, vinda da Bósnia. Casada, como eu, com um australiano.
como a muçulmana nascida na Índia, médica de cuidados intensivos a viver aqui há mais de uma década, casada com um engenheiro mexicano aqui chegado há metade desse tempo.
como o pai de um amigo de infância do Roger, já aqui nascido de família grega que, aos setenta anos, resolveu descobrir as veias abertas deste país e foi trabalhar para o território ocidental, com a comunidade aborígene. Tem os dias contados com um cancro terminal, mas está determinado a extrair vida de cada hora. Encontro-me com ele frequentemente, para que me conte a sua história e experiência, e me ajude a descobrir as várias terras desta terra. Talvez escrevamos um livro com elas. Ou talvez apenas façamos das horas memórias que retiram à doença a capacidade de contaminar o fim.
Amizades de periferia que são o sofá onde me sento descalça, onde arrisco deitar-me e esticar as pernas como se estivesse em minha casa.
O país ao qual não pertenço, o país imaginado na fábula de uma Terra Nullius (1), pintado de branco e louro anglo-saxónico, rodeado de uma Ásia que o incomoda e de uma cultura aborígene que despreza, anda aos gritos fora do conforto destas amizades. O mundo inteiro, de resto, anda aos gritos, ou aos silêncios, dependendo do que se fala. No centro da vida política, afirma-se que a Austrália é um país monocultural. Anglo-saxónico, pois, branquinho de pele, civilizado, portanto. Uma cultura única, a dos fish and chips que tanta alegria trouxe ao mundo e tão inigualável legado cedeu à gastronomia mundial. Um país-exemplo que ainda agora encarcera e coloca em celas de isolamento crianças de dez anos (2), de pele morena, claro, crianças desta terra antes da monocultura ser branca. Um país-exemplo que ensina ao mundo como tratar os refugiados, atirando-os para uma ilha prisão onde a dignidade e humanidade são fundamentalmente perdidas. Nesta terra, para se pertencer, é importante permanecer eternamente no lusco-fusco da ignorância, nessa luz tosca do sol encostado ao horizonte, quando os detalhes se esbatem e as sombras se apagam.
Certo. Não é só aqui. Mas não sei se me engano ao pensar que particularmente aqui, neste país onde o sangue do genocídio ainda não secou. Onde o passado ainda é presente na voz do vento. Onde a fábula da civilização europeia facilmente mostra caninos afiados. Terra Nullius. Nunca foi, e nunca será.
Instalo-me, pois, na periferia do grande silêncio australiano (2), com as minhas amizades também de periferia e todas as minhas Ritas passadas, menos a que ainda hei-de ser, aquela atrás da porta que ainda está encerrada. Sinto que ainda muito está para vir e que talvez venha a encontrar a forma certa de aqui permanecer com responsabilidade, sem aperto no peito nem engasgue na traqueia. Provavelmente, a caminhar mais adentro da periferia, para onde foi e continua a ser empurrada a mais antiga cultura do mundo. Fá-lo-ei, teimando em ser feliz também. Porque a felicidade não pode ser raptada pela ignorância e pela dormência. Não pode pertencer apenas à cumplicidade. Estou convencida que alimentar a felicidade, a amizade e o amor num mundo em ruínas, não abandonando consciência e resistência, é um necessário acto de rebeldia.
Venha, pois, mais um ano de Naarm, marcado em números que são mais do que números, na nossa tola disciplina temporal. Venha essa porta fechada e tudo o que vou descobrir quando ela abrir. E venha, aos poucos, essa outra Rita que eu ainda não conheço.

(1) Termo latino que se refere a uma terra que não pertence a ninguém e é portanto livre para ser reclamada e ocupada. Ainda agora, o mito da Terra Nullius sobrevive no coração da Austrália.
(2) Termo cunhado em 1968 pelo antropólogo W.E.H. Stanner e que se refere não apenas à falta de reconhecimento na Austrália das atrocidades cometidas no passado, mas a um esforço de ignorância propositada que resulta num efectivo esquecimento da sua História. https://australian.museum/learn/first-nations/unsettled/healing-nations/the-great-australian-silence/
Partilhas
Para ler. Uma história, por vezes, informa-nos melhor do que uma centena de artigos e conta-nos tudo o que é necessário saber.
Para ouvir. O momento que vivemos é alarmante e por isso é urgente que o olhemos de frente. A escritora e jornalista turca Ece Temelkuran, entrevistada por Chris Edges, numa audição fundamental.
Breve. Pequeno excerto do livro “Another Day in the Colony”, de Chelsea Watego, escritora, académica e activista Munanjahli, criada na terra dos Yuggera. O sublinhado é meu.
“But it’s not as though I wanted the things that white people possessed; I remember wanting to break through that ‘vast veil’ in the way Du Bois refused to do. I did not want their stuff — I wanted their sight. I wanted to be able to see the world as they saw it, that real gift of sight; which actually isn’t that second sight of seeing through yourself through the eyes of a worls that ‘views you with contempt and pity’. No, I wanted that gift of sight they had: the fundamental belief in the goodness of the social world one occupies, of thinking that the world and all within it was within our reach, and the confidence of knowing that the world still worked for you, because of course it is founded upon your humanity too. But for Blackfullas it isn’t. Never was and never will be, at least in the colony."
“Home is not where you are born; home is where all your attempts to escape cease.”
Naguib Mahfouz







Texto belíssimo, parabéns!