Tropecei
Perspectiva pessoal sobre o meu mais recente livro e a sorte que alguns de nós têm quando tropeçam.
Não me lembro de algum dia ter sonhado ser escritora, mas já confessei várias vezes que durante muito tempo quis ser jornalista. No meu imaginário, o jornalista era alguém que abria portas ao mundo e que por elas saía a correr planeta fora, para regressar com notícias da riquíssima tapeçaria da humanidade. O jornalista não passava os dias fechado numa redacção, alimentava-se de experiências, hidratava-se de verdade, compreendia o outro como ninguém. Nunca era menos do que um, ou uma, Kapuściński. Está visto que estava destinada a uma carreira tão efémera como aquela que tive na cooperação internacional!
Sonhei ser jornalista no espaço restrito do meu quarto na cidade da Guarda, onde sufocava na pequenez e onde me dedicava a limar de ingenuidade as arestas da realidade. Desde muito cedo comecei a gastar a mesada em revistas e jornais. Tinha treze anos quando surgiu O Independente e era eu que o trazia para casa, deliciada com o Miguel Esteves Cardoso, sob o olhar desconfiado da minha família de esquerda. A mesma idade com que comecei a respirar profundamente nos longos textos e incríveis fotografias da Grande Reportagem. Era esse o meu caminho, era por aí que ia. Mas tropecei e acabei por me enfiar pela via da cooperação internacional, onde tive uma fulgurante carreira. Ascendi depressa e caí redonda em pouco tempo. Não dei pelo precipício onde o idealismo desmoronava e a ética se esfumava.

Mais ou menos por essa altura, o jornalismo ainda se meteu comigo. Aos vinte e nove anos tive uma reportagem publicada na revista de domingo do Público —“Na Linha de Fogo: a Resistência Civil no Conflito Colombiano”. Com texto e fotografias da minha autoria, retractava a realidade das comunidades de paz na Colômbia e a sua resistência ao conflito que lhes tirava pão, vida e dignidade. Mas fiz batota. Não era jornalista. Não fui visitar as comunidades para a notícia, mas ao contrário. Tinha-as acompanhado durante o ano de 2001, com o colete das Peace Brigades International vestido. Quando regressei em 2003, porque não conseguia despir a sua luta dos meus dias, escrevi a peça para contribuir para a sua visibilidade. Não foi um caminho em direcção ao jornalismo, mas um apêndice do meu percurso humanitário, antes de tropeçar e rebolar por ele abaixo.
Depois de abandonar a fulgurante carreira, destinada desde o início ao fracasso — tivesse-a eu entendido melhor — resolvi voltar a estudar e mudar a minha interacção com o planeta e a humanidade. Felizmente, não escolhi o jornalismo. Vá-se lá saber com que rasgo de clarividência, coloquei o sonho na gaveta e decidi fazer o que nunca me tinha ocorrido antes: mergulhar os meus neurónios numa solução de raciocínio clínico e as minhas mãos na arte da fisioterapia.
Mas se na vida abandonamos muitos sonhos, os enterramos debaixo de camadas e camadas de pós dos dias, alguns são teimosos. Não se ficam. Espreitam à superfície mal os dias se distraem e se descuidam de largar pó.

Aconteceu que, muitos anos depois da peça no Público, tropecei outra vez. Desta vez, esbarrei-me na ficção. Não era o meu sonho, ser escritora, nunca foi. Tropecei. Foi mesmo assim. Tropecei, cai, gostei. A minha ficção é manhosa, porque assim que tem o touro pelos cornos, assim que a atenção do leitor está à disposição, perde a ingenuidade e eu aproveito para fazer o que queria fazer com o jornalismo.
Mas, e é aqui que queria chegar com esta partilha pouco eficiente, foi este tropeço na ficção que tornou possível que o meu sonho de jornalismo se concretizasse momentaneamente. Há dois anos, porque me conheciam como escritora, foram-me buscar à Malásia para ir à Suécia e entregaram-me a responsabilidade de documentar a história da emigração portuguesa (e associativismo) no país. Mergulhei de bloco de notas, gravador e câmara na mão e desapareci como pude por detrás das memórias que deixei correr. Fui conhecer o outro num lugar para mim até então desconhecido. Os líderes associativos, os primeiros emigrantes, a geração luso-sueca que lhes seguiu, as mulheres e as suas lutas particulares e sempre esquecidas, as histórias mais ou menos dolorosas. O resultado foi o livro mais importante que já escrevi (sobre o qual falei aqui). Antes dele, não havia um registo histórico desta emigração. Havia uma história oral que se perdia e que já se começava a confundir. As pessoas partiam, e com elas tudo o que podia desembaciar o passado. Ainda fomos a tempo de escrever o que de outra forma se ia perder. Acredito que contribuimos com um pequeno tijolo para o grande edifício da História.

Na Suécia, país onde um dia sonhei viver, sonho também enterrado no pó dos dias, desenterrei momentaneamente o sonho de ser jornalista. Descobri, para ajudar a descobrir, ouvi, para ajudar a que se ouça, entendi, para ajudar a entender. E documentei tudo. O resultado final transborda de importância para quem o aguardou durante dois anos, vai ser lido e relido, vai ocupar lugar privilegiado nas prateleiras de muitas casas e as histórias dentro dele vão permanecer vivas para lá do seu tempo.
Eu, cumpri um sonho. E devo ser, quando tropeço, das pessoas mais sortudas deste planeta.
Partilhas
Viemos por um tempo, ficámos a vida toda
Se quiserem comprar o livro, ele está disponível para venda aqui:
O lançamento do livro em Estocolmo ficou registado em video, e podem aceder a ele aqui:
Escritoras do meu país
Este sábado, 13 de Dezembro, às 16.00, vou estar com a querida Mafalda Santos à conversa na Bilioteca Municipal de Beja. Se estiverem por perto, apareçam.
O encontro termina um ciclo de conversas desenvolvido este ano pela Biblioteca Municipal de Beja em parceria com o Clube das Mulheres Escritoras. Sob o título “Escritoras do meu país”, os encontros destinaram-se a dar a conhecer o trabalho das escritoras do clube, contribuindo para divulgar a literatura contemporânea em Portugal escrita por mulheres.
Robert Fisk - “The great war for civilization”
E porque falo tanto de jornalismo, partilho o livro que me suga nestes dias. Jornalismo a sério, por um dos grandes. Vim da Suécia directamente para a minha cidade da Guarda, o lugar onde sonhei nunca ficar. Desta vez tropecei numa constipação e estou presa à cama, mas tal como sempre aconteceu desde que aprendi a ler, estou noutros lugares completamente diferentes. Já estive nos primeiros dias da invasão soviética do Afeganistão, onde se ouvia dizer “há árabes a combater…” e não se sabia quem eram esses árabes e, entre eles, principalmente esse, de quem nunca mais esquecemos o nome. Passei pelo Irão, quando se descobriam as prisões do Shah, abençoadas pelo amigo norte-americano onde as técnicas de tortura incluíam uma “cama de fritar” e não se sabia ainda se a Revolução ia ser benigna. E agora preparo-me para viajar até ao Iraque nos tempos em que o ditador era um tipo muito fixe e não o demónio na terra, porque para quem não sabe, os ditadores mudam de personalidade consoante o sopro do vento. Tudo, contado por quem domina a arte de contar uma história. São mais de mil páginas, o que assusta muita gente e me assustou a mim durante muito tempo, mas tenho a sensação, ao lê-lo, que é um documento indispensável para entender o centro nevrálgico do nosso presente.

Squadron leader Arthur Harris, later Marshal of the Royal Air force and the man who perfected the firestorm destruction of Hamburg, Dresden and other great German cities in the Second World War, was employed to refine the bombing of Iraqi insurgents. (...) In 1924, he had admitted that “they (the Arabs and Kurds) now know what real bombing means, in causalities and damage; they know that within forty-five minutes a full-sized village can be practically wiped out and a third of its inhabitants killed or injured.”
Robert Fisk, The Great War for Civilization





